“Tudo que não invento é falso”
(Manoel de Barros)
Brincar é exercitar a maneira de se relacionar com o mundo, tanto corporalmente quanto intelectualmente, explorando a capacidade de abstração e a criatividade. É trabalhar com a linguagem transformando os signos em um quebra-cabeça que pode ser montado de diversas formas. É relacionar-se intimamente com a subjetividade, aceitando e compartilhando com os amigos uma grande diversidade de pontos de vista, tanto no plano da fantasia quanto no da realidade.Quanto mais simples é o brinquedo, maior o leque de possibilidades criativas. Em “As Coisas Que Moram Nas Coisas”, Tó, Ginho e Cacá desenham com o dedo sore as estrelas, brincam de carrinho com as listas do cobertor, equilibram pilhas de copos de plástico como se fossem uma torre prestes a desabar. Para Tó, Ginho e Cacá, pedras coloridas viram enfeite ou lugar para lesma subir em cima, formigas enfileiradas são inimigos a serem destruídos com a força de um mijo, pente de plástico estragado vira coroa de princesa. Tó, Ginho e Cacá relacionam-se com objetos descartados pela cidade, atribuindo-lhes novos significados, trazendo à tona imagens escondidas no inconsciente, conhecendo-se através delas. Eles são pequenos artistas que transformam coisas em caixa mágicas, cheias de idéias e poesia, e abrem a tampa delas para qualquer um que estiver disposto a interagir. Endurecer é perder a capacidade de burlar os significados objetivos das coisas, de criar novos pontos de vista, de usar a alegria como um instrumento para florescer a criatividade. É acomodar-se em uma visão meramente prática dos objetos, adequando-se confortavelmente a padrões de comportamento. Existem idosos extremamente cheios de vida e de buscas, ao mesmo tempo em que há crianças desesperançadas, reprimidas e infelizes. O maior crime que se pode cometer contra a infância é tirar das crianças a oportunidade de sonhar, de brincar. Dificilmente encontramos um adulto tão dedicado ao seu trabalho como a criança o é à sua brincadeira. O trabalho é dirigido de fora, pelas necessidades e metas dos adultos. Brincar brota de dentro da criança. Os pais tentam tirar dos personagens Ginho, Tó e Cacá a espontaneidade de estar sempre inventando brincadeiras, ao impor-lhes uma objetividade rígida para que o trabalho de catar sucatas renda mais. Eles colocam sobre as crianças parte do peso da responsabilidade de levar para casa o pão de cada dia. Ginho, Tó e Cacá decidem ter o poder de transformar o dia em noite e a noite em dia. Passam a madrugada brincando enquanto, de dia, decidem que anoiteceu e fingem que latas são lanternas, talvez numa tentativa inconsciente de iluminar a escuridão daquela realidade. Foi necessário um susto de um quase atropelamento para fazer os pais caírem em si: aquele não era o lugar para suas crianças. Apesar de brigarem com Tó, Ginho e Cacá, mandando-os embora agressivamente, sentem-se tristes e culpados, pois acabam entendendo que as crianças, ao brincarem, estavam exercendo apenas seu direito de ser crianças. Todo adulto tem, mesmo que seja reprimido, seu lado lúdico e inventivo. Os pais de Tó, Ginho e Cacá, depois de um dia inteiro trabalhando sozinhos, param para descansar e acabam se permitindo resgatar este lado. De repente, eles entendem a importância de rir, fazer experiências, relacionar-se com os objetos e com as pessoas sem tanto peso e rigidez. Tudo começa quando a mãe manipula um pedaço de espelho e atira um facho de luz na cara do pai. Ele também pega na carroça um objeto que reflete luz e os dois entram numa divertida guerra de fachos de luzes. O convívio com as crianças finalmente transformou os pais de Ginho, Tó e Cacá: um adulto pode ser responsável e ao mesmo tempo feliz. Este projeto justifica-se pela sua grande pertinência para o atual momento no Brasil, levando-se em consideração principalmente dois aspectos. “As coisas que moram dentro das coisas” é um filme-manifesto contra o trabalho infantil, em um Brasil em que, de acordo com censo do IBGE, das 43 milhões de crianças na faixa etária entre 5 e 17 anos, 5,4 milhões trabalham de forma irregular, o que corresponde a 12,7% das crianças brasileiras. Além disso, o filme caminha contra a corrente no que se refere ao surto de culto ao consumismo que invade o país, influenciando todas as classes sociais. “As coisas dentro das coisas” tem como protagonistas crianças pobres que são felizes, já que a criatividade pode transformar um pente em um brinquedo muito mais legal do que o último lançamento da Barbie nas prateleiras das lojas.
Vencedor do concurso de curtas-metragens com temática infantil do Ministério da Cultura de 2004, o projeto encontra-se em fase de pré-produção. As filmagens estão previstas para Abril de 2005.
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